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O Amor sob a ótica do Direito Sistêmico | Jornal Em Destaque por OAB em Colunista

O Amor sob a ótica do Direito Sistêmico



O Amor sob a ótica do Direito Sistêmico Classificação

17/10 11:09 | Paty do Alferes | Colunista |

OAB

Por Mayra Islane Santana

“O Amor é terapia, no mundo não há nenhum outro tratamento senão o Amor. É sempre o Amor que cura, o Amor faz você inteiro.”

Anton "Suitbert" Hellinger, popularmente conhecido como Bert Hellinger, foi um filósofo alemão que revolucionou a área da psicologia para trazer à lista de terapias alternativas a denominada “constelação familiar”, um formato de terapia que atualmente faz parte das Práticas Integrativas e Complementares em Saúde institucionalizada pelo Sistema Único de Saúde (SUS) como recurso terapêutico, juntamente com a acupuntura, a homeopatia e a terapia de florais.

Segundo o SUS, a prática busca "a prevenção de doenças e a recuperação da saúde com ênfase na escuta acolhedora", integrada ao modelo convencional.

A história de Bert Hellinger conta que ele passou por duas guerras, sendo que na eclosão da 2ª Guerra Mundial, foi recrutado e capturado pelas tropas americanas, permanecendo por um ano preso. Após retornar a Berlim, serviu em uma ordem Missionária Católica que o enviou à África do Sul, conhecendo nesta missão uma tribo que tratava seus pais com grande respeito e por isso quase não possuía conflitos familiares. No contexto de guerra e opressão nazista pela qual atravessou, passou a estudar os motivos pelos quais existiam tantos conflitos na sociedade, e que para prevenir e curar certas feridas emocionais, os seres humanos deviam se atentar para três regras básicas de convivência, às quais chamou de Ordens do Amor: hierarquia, pertencimento e equilíbrio de dar e receber.

Em apertada síntese, segundo essa filosofia, cada família possui um sistema próprio, e alguns comportamentos são repetidos ao longo de gerações, e algumas feridas são carregadas por um membro que nem mesmo tem consciência dessa lesão, o que é inconscientemente aceito por ele para prestar homenagem àquele que não foi visto ou não foi aceito. Alguns padrões familiares podem ser bastante nocivos à saúde familiar e para contorná-los é preciso identificar e tratar, o que se propõe mediante atenção a estas leis universais.

Segundo a lei da hierarquia, deve ser respeitado aquele que veio primeiro - os pais, por exemplo, vêm antes do filho, então o filho não pode desejar comandar a vida dos pais, já que eles têm precedência nessa relação. Assim, deve-se respeitar o que veio antes, e sua posição de chegada, e entender que cada um possui uma vida cheia de vivências, experiências, sofrimentos. Cada ser é dotado de individualidade peculiar à criação que recebeu, ao ambiente social em que conviveu, ao caráter e personalidade que formou, não sendo saudável para o que chegou por último querer se posicionar no lugar daquele que chegou primeiro.

Assim também todos que se unem à família de algum modo, qualquer que seja, tem o direito de pertencer. Todos compõem o sistema familiar, e devem ser incluídos na percepção de respeito e amor, até mesmo aqueles já falecidos, ou que nunca nasceram. A partir do momento que surge um prenúncio de existência naquele sistema, ainda que não esteja mais ali, ou que não seja aceito como um membro PERno núcleo familiar, para o trabalho de cura acontecer, deve ser considerada sua existência e respeitada sua posição, como forma de sanar quaisquer problemas morais, psicológicos ou até de saúde que fatalmente são resultantes desta rejeição. Segundo a visão sistêmica, a exclusão de um indivíduo cria diversos problemas de ordem psicológica, sendo que estes danos podem ser trazidos ao longo de gerações familiares, numa espécie de banco de dados do gene herdado por aquela família, sucedendo-se e protraindo-se no tempo.

Como forma de se consolidar a harmonia familiar, tudo o que se recebe deve ser dado em troca, e vice-versa. Portanto, aquele que deu precisa receber, e o que recebeu deve reconhecer o valor dessa entrega e reproduzir o mesmo comportamento adiante, com gratidão. Assim, a prática de violência deve ser reconhecida como um distúrbio no sistema, uma vez que não revela o Amor que se espera, cabendo àquele que adquiriu consciência evitar transmitir o comportamento doentio, a fim de se diminuir progressivamente a prática no sistema das futuras gerações.

Fala-se, ainda, em uma quarta ordem, a do assentimento - que é aceitar a tudo o que vem, com amor e respeito, entendendo que nada é por acaso, e que o fato ocorreu para sua evolução, para seu aprendizado, e que tudo acontece como deveria ser, de forma a gerar equilíbrio a fatos passados.

A prática é bastante criticada por grupos religiosos, feministas e psicólogos, que não aderiram ao movimento, sendo tratado por alguns como charlatanismo, religião, terapia falaciosa sem embasamento científico. Movimentos feministas acham que a prática agride a mulher vítima de violência doméstica, causando uma revitimização e opressão, coagindo a mulher a aceitar tudo o que lhe ocorreu e a perdoar o agressor, fazendo-a crer que é a culpada pelos comportamentos abusivos que a acometeram.

Fato é que o SUS incluiu a constelação sistêmica no rol de terapias alternativas, e o Poder Judiciário já acatou como uma forma de solução de conflitos judiciais, especialmente na seara do direito das famílias, assim como já são aceitas e muito utilizadas as sessões de mediação, arbitragem, palestras e cursos de reeducação social, psicológica e inteligência emocional. Atualmente, já é previsto na Lei nº 11.340/2006 (Lei Maria da Penha) como forma de medida protetiva à mulher vítima de violência doméstica, o encaminhamento do agressor a programas de recuperação e reeducação, bem como o acompanhamento psicossocial do agressor por meio de atendimento individual ou em grupo (art. 22, incisos VI e VII).

Os impactos que os conflitos causam a toda a sociedade é inegável. No Poder judiciário, no sistema de saúde, nos Municípios que prestam atendimento social, reflexos vistos inclusive no sistema penitenciário, abarrotam os equipamentos públicos que prestam a assistência específica, mas não logram êxito em resolver o conflito em seu ponto nuclear, haja vista a necessidade primordial que se tem de educar as famílias em princípios e valores morais capazes de ressignificar suas vidas dentro dos seios familiares, projetando-se nas futuras gerações.

Independentemente de ser um ensinamento moral comumente visto em práticas religiosas, sobretudo as tradicionais, ainda que crenças sejam diversas ou que não haja crença, o princípio do Amor foi relatado por Jesus Cristo, pessoa que comprovadamente viveu nesta Terra e passou diversos ensinamentos sábios, como o Primeiro Mandamento: “Amar ao próximo como a ti mesmo” (transcrito em Mateus, 22:37-39), não sendo ofensa falar que neste Mandamento também se ensina a “amar a si próprio”.

Por sinal, “amar a si próprio” é uma fala bastante usada em palestras de conscientização às mulheres vítimas de violência doméstica, haja vista sua importância para o autoconhecimento e o estabelecimento de limites da prática abusiva e tóxica pelo outro dentro de um relacionamento, e até por si própria. É altamente relevante mostrar às pessoas como a falta de amor-próprio, respeito, empatia e sensibilidade podem certamente levar à destruição, mas uma vez percebido o problema, perpetuar a raiva e o medo ocasionados pela dor também é um destrutivo social, que deve ser tratado.

Portanto, ainda que se queira discriminar a prática, à luz das estatísticas de conflitos existentes, e considerada a associação do tema aos impactos na saúde como um todo, facultar tal tratamento às pessoas que demandam por assistência é democrático e salutar, entregando-se ao próprio indivíduo o alcance da solução, e complementando-se as alternativas atualmente existentes.

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